ARBERRY, A. J. Le soufisme: La mystique de l’Islam. Jean Gouillard. Paris: Editions Le Mail, 1988
Veja: versão francesa, da tradução abaixo
Em seguida, o primeiro não deixou de chamar o segundo, o predecessor o sucessor, com a linguagem de sua obra que o dispensava da palavra. Mas o desejo diminuiu e a resolução enfraqueceu: e isso trouxe a maré de perguntas e respostas, de livros e tratados; o sentido profundo foi conhecido por aqueles que escreviam e o coração daqueles que liam se abriu para compreendê-lo (Kalâbâdhî, op. cit., pp. 2-3).
A Arábia, o Iraque, a Síria e o Coração haviam tomado parte igual nos progressos da corrente ascética. Viu-se o desprendimento (zuhd), virtude aprovada pelos teólogos mais ortodoxos do Islã (o famoso Ahmad b. Hanbal, morto em 241/855, o fundador da mais estrita das quatro escolas de jurisprudência sunita, escreveu ele mesmo um Kitâb al-Zuhd), transformar-se pouco a pouco em algo muito diferente. O desprezo radical pela riqueza e pelas ambições temporais se sublima para tornar-se uma absorção total no temor, depois no serviço e finalmente no amor de Deus.
O ascetismo pelo ascetismo tende a tornar-se uma atitude antes triste e negativa em relação ao universo; o calor de uma emoção espiritual a transforma em um ardor fervoroso que se alegra na dificuldade e encontra suas delícias no êxtase; submetido à luz da razão especulativa, evolui para uma disciplina árdua que forma o prelúdio necessário de uma teosofia autêntica. Esta última fase teve por teatro Bagdá, que se tornou o centro mais importante do sufismo, como havia acabado por se tornar o foco das letras, da teologia e do direito. É certo que as discussões livres entre cristãos e muçulmanos, que animaram a corte dos Abássidas durante um curto período de esplêndida tolerância, e a tradução para o árabe de Platão, Aristóteles e dos filósofos gregos posteriores contribuíram eficazmente para acelerar essa transição. Por sua vez, a doutrina da Unidade divina (tawhid) apaixonava cada vez mais o espírito dos sábios e dos devotos à medida que se aguçava a controvérsia entre seitas e confissões rivais. Nada de espantoso que os sufis tenham também elaborado uma interpretação própria desse ponto crucial da teologia islâmica. Mas um estudo desses problemas nos levaria longe demais do objeto que nos ocupa.